
São Paulo - A paixão de dois engenheiros pela vela e uma série de coincidências trouxeram para o Brasil a terceira medalha de ouro olímpica. Aconteceu nos Jogos de Moscou, em 1980. O Brasil foi ouro de novo, na vela, classe tornado, 24 anos depois da última conquista (Adhemar Ferreira da Silva, em Melbourne, 1956), com os iatistas Lars Sigud Bjokstron e Alex Welter.
A quebra do jejum ocorreu em julho, em Tallin, na Estônia, a mais de mil quilômetros de Moscou, onde foram disputadas as provas do iatismo. No início dos anos setenta, nos Estados Unidos, o sueco Lars resolveu sair pelo mundo, sem destino, como era moda entre os jovens americanos. Pilotando uma motocicleta, Lars e um amigo percorreram a América Latina inteira e quase no fim de 1972 entraram no Brasil, por Foz de Iguaçu. Acabaram em São Paulo, on
de arrumaram emprego e passaram a morar. (O amigo de aventuras ficou no país até o governo Collor, quando desencantado pegou a família e voltou para a Suécia). Lars continuou por aqui.
Ele tinha experiência na vela desde garoto e continuou a velejar na represa de Guarapiranga, em São Paulo, e a frequentar os clubes paulistanos de iatismo. Faltava-lhe só um bom barco. A oportunidade surgiu quando um compatriota, que vinha morar e trabalhar no Brasil, precisou alugar um contêiner para trazer a mudança. Lars, já naturalizado brasileiro, fez contato com um tio na Suécia, pedindo-lhe que comprasse um barco usado, especial para a classe tornado.
Assim foi pedido e assim foi feito. Havia um outro problema: fazer o tornado chegar no Brasil. O barco foi desmontado e aproveitou-se a sobra de espaço no contêiner para a remessa. O presente foi montado no São Paulo Yatch Club. Começaria a nascer alguns dias depois a dupla, futura campeã olímpica. Era 1975.
Filho de alemães, o também engenheiro Alexandr Welter frequentava o Yacht Club Santo Amaro. Tinha experiência; quando fez um estágio profissional na Alemanha, seu lazer de fim de semana era velejar. No Brasil, já tinha sido reserva da equipe brasileira nas Olimpíadas de Munique (1972) e Montreal (1976), classe finn. Quando viu o tornado, barco dos seus sonhos, montado no ancoradouro do clube vizinho, Alex ficou louco. Procurou o dono, soube que era Lars e fez contato. Se entrosaram de cara: como Lars, Alex também gostava de motos e tinha tido criação e costumes europeus. Os dois começaram a treinar e competir juntos, somando a experiência de cada um para chegar ao ouro em Tallin.

Antes de chegar a Olimpíada de Moscou, eles participaram de muitas competições aqui e no Exterior, aprimorando a técnica em detalhes. Velejavam inicialmente em Guarapiranga, até que colocaram o tornado num reboque e foram participar de uma seletiva no Rio de Janeiro. Não esperavam muito. O resultado foi uma surpresa: um 2º lugar e a chance de ir ao Mundial da Austrália. Era a largada para competir em muitas provas internacionais, conhecer adversários mais fortes e afinar cada vez mais o entendimento. Em 1979, Alex foi para um estágio profissional na Alemanha e com isso vieram outras chances para aperfeiçoar as técnicas, estudar correntes de vento e aprimorar seus conhecimentos na vela.
Na Alemanha, o primeiro barco ganhou o nome de Jacaré, mas se esfacelou numa das etapas do Campeonato Alemão. Surgiu então o Jacaré-2, montado a partir de um casco, um protótipo comprado de um velejador alemão. O 2 era uma verdadeira colcha de retalhos: uma vela inglesa, outra austríaca, mastro inglês, bússola sueca e equipamentos espanhóis e franceses. Mais algumas modificações e o Jacaré-2 estava pronto para enfrentar o desafio olímpico.
A última competição antes das Olimpíadas aconteceu no Mar Báltico. Ficaram em quarto, competindo com os melhores iatistas do mundo e sabiam que tinham grandes chances de obter uma medalha olímpica. Além disso, conheciam Tallin como a palma da mão. Tinham competido lá nos três anos anteriores e se sentiam em casa, como relembra Lars. A dupla sabia como se comportavam os ventos, estava familiarizada com as correntezas, com as oscilações do clima. E assim o ouro veio chegando mansamente. Após quatro regatas, quatro barcos estavam empatados. A dupla brasileira venceu a quinta prova e o Jacaré 2 cruzou em primeiro na sexta regata, debaixo da comemoração e aplausos das pessoas que estavam num navio de apoio, fundeado logo após a chegada. Era dia 29 de julho de 1980. Os favoritos destacados, os dinamarqueses Peter Due e Per Kjergard, tiveram que se contentar com a prata. O ouro era do Brasil. No dia seguinte, o iatismo conquistaria a quarta medalha de ouro olímpica, na classe 470, com Marcos Soares e Eduardo Penido. Mas esta é outra história, para ser contada depois.