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Adhemar:  com um de seus múltiplos troféus. Quando a Federação Internacional criou o Hall da Fama do Atletismo, em 2012 / Foto: Acervo familiar

São Paulo - Um dia perguntaram ao recordista mundial Adhemar Ferreira da Silva por que tinha resolvido ser atleta. E ele simplesmente respondeu:

“Gostei da palavra atleta, achei bonita e decidi que queria ser um”. 
 
Bicampeão olímpico, tricampeão dos Jogos Pan-Americanos, recordista mundial quebrando às vezes seus próprios recordes: este poderia ser o perfil resumido do brasileiro Adhemar, um negro alto (1,87m), esguio, com pernas longas e um largo sorriso no rosto quando algo o agradava. Mas não era só isso.
 
Além de admirado e respeitado no mundo inteiro como atleta, era formado em Direito, Belas Artes, Relações Públicas e Educação Física. Foi jornalista e escultor. Adorava estudar idiomas e falava português, inglês, francês, italiano, espanhol, alemão, japonês e finlandês. Nos momentos de lazer gostava de cantar, lembrando da época em que foi ator no filme “Orfeu Negro”, uma coprodução franco-ítalo-brasileira, vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1960, representando a França. 
 
Paulistano da Casa Verde, Adhemar nasceu em 27 de setembro de 1927, filho de uma cozinheira e um ferroviário. Família pobre, o menino começou a trabalhar cedo para ajudar em casa. O atletismo chegou tarde para quem sonhava ser atleta; tinha pouco mais de 18 anos. Treinava no intervalo do almoço e nos fins de semana.
 
Gostava de contar como começou no atletismo. Tinha um amigo, José Carlos Cato, que competia pelo São Paulo. Naquela época o estádio do tricolor era no Canindé (vendido depois à Portuguesa de Desportos). Adhemar foi ver um treino de Cato, que perguntou se ele não queria também ser “um atleta”. Ele gostou da palavra e foi apresentado ao alemão Dietrich Geiner, técnico de atletismo do São Paulo.
 
A parceria iniciada ali continuaria pelo resto da vida. Geiner foi seu anjo da guarda durante toda carreira. Depois de treiná-lo fortemente por mais de um ano, Geiner inscreveu Adhemar para competir pela primeira vez no Troféu Brasil de 1947. Ele obteve a marca de 13,05 metros, excepcional para a época. E não parou mais. Foi pentacampeão sul-americano e tricampeão pan-americano (1951,1955 e 1959). Venceu o campeonato luso-brasileiro, em Lisboa em 1960. Foi dez vezes campeão brasileiro, tendo mais de 40 títulos e troféus internacionais.
 
Para as Olimpíadas de Helsinque, na Finlândia, em 1952, treinou muito. Quando entrou na pista não imaginava bater o recorde mundial do salto triplo, de 16 metros, do japonês Naoto Tajima, que vigorava desde 1936. Na mesma tarde quebrou a marca por quatro vezes. Saltou 16,05 metros, 16,09, 16,12 e 16,22. Saiu com a medalha de ouro e como o melhor do mundo.

Adhemar criou, sem querer, o que seria eternizada como a volta olímpica, nascida em Helsinque e reeditada depois pelos maiores campeões em outras olimpíadas / Foto: Arquivo Cbat

E criou, sem querer, o que seria eternizada como a volta olímpica, nascida em Helsinque e reeditada depois pelos maiores campeões em outras olimpíadas. Proclamado como vencedor, os   aplausos para Adhemar começaram tímidos e foram crescendo cada vez mais, com os espectadores se levantando para reverenciá-lo. Um dos juízes disse ao brasileiro: “Eles querem que você dê uma volta na pista”. Adhemar então percorreu a pista toda, sob aclamação de milhares de pessoas.
 
Ao deixar o alojamento, Adhemar havia feito um pedido à cozinheira finlandesa, sua amiga. Queria um filé com fritas, para o jantar, depois da prova. Quando voltou, havia o filé, as fritas e um bolo, onde estava escrito: “16,22”.
 
Nos Jogos Olímpicos seguintes, em Melbourne, na Austrália, em 1956, quase fica de fora. Na antevéspera da competição, uma dor de dentes terrível quase o eliminou da prova. O chefe da delegação levou Adhemar a um dentista, foi feita uma punção e o brasileiro conseguiu enfim fazer os últimos treinos, na preparação para vencer seu maior adversário, o islandês Vilhjalmur Einarsson. Saltou 16,35 metros, ganhou o apelido de Canguru Brasileiro, a medalha de ouro e consagrou-se como o primeiro brasileiro bicampeão olímpico. O Brasil só teria novos bicampeões 48 anos depois, em Atenas, com os iatistas Robert Scheidt, Torben Grael, Marcelo Ferreira e com os jogadores do vôlei Giovanni e Maurício.
 
Ao voltar da Austrália, o governo resolveu dar-lhe uma casa como prêmio. Adhemar agradeceu mas não aceitou, explicando que isso quebraria sua condição de amador e assim ele não poderia mais competir representando o Brasil. Naquela época, o amadorismo esportivo era respeitado e levado a sério.
 
No fim dos anos 50, mudou-se para o Rio e filiou-se ao Vasco. Deixou o São Paulo, para tentar a carreira de jornalista. Convidado por Samuel Wainer, dono da Última Hora para ser colunista, foi treinar e viver na Guanabara. Mas a ideia acabou não dando certo. Entre 1964 e 1967 aceitou outro convite e se tornou adido cultural na embaixada brasileira em Lagos, na Nigéria.
 
Em sua quarta Olimpíada, em Roma, em 1960, Adhemar não teve uma boa performance e não passou das eliminatórias. Saiu do Brasil fazendo 16,08m. Nas três tentativas de classificação se esforçou, tentou reagir com o incentivo do técnico Dietrich, que berrava do lado de fora da pista, mas os números estavam contra ele.  “A marca não vinha”, contou ao voltar. Foi sua despedida das Olimpíadas. Adhemar estava com problemas respiratórios; apesar de ser atleta, era fumante. Entretanto, o público presente no estádio olímpico de Roma não deixou de prestar seu tributo ao brasileiro. Desclassificado, ele deixou pista aplaudido por milhares de pessoas que lotavam o estádio.
 
Terminou a carreira no Complexo Esportivo do Maracanã, no Rio, no dia 1.o de outubro de 1960. Mas deixava uma estrada pavimentada e que seria depois percorrida por outros notáveis atletas do salto triplo, como João Carlos da Silva, o João do Pulo, e Nelson Prudêncio.
 
O reconhecimento definitivo aconteceu em 2012, ano do centenário da Federação Internacional de Atletismo. A lista com os nomes dos doze maiores do atletismo nos cem anos, trazia Adhemar Ferreira da Silva, ao lado de lendas como Jesse Owens e Paavo Nurmi, imortalizando-o no Hall da Fama. Atualmente há 48 homenageados. Adhemar segue sendo o único brasileiro.
 
Adhemar Ferreira da Silva morreu de infarto, em São Paulo, em 12 de janeiro de 2001. Tinha 74 anos.
 
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