São Paulo - A primeira medalha de ouro olímpica do Brasil chegou depois de uma saga digna de um livro. Ela foi ganha por Guilherme Paraense, integrante da equipe de tiro nos Jogos Olímpicos de 1920, em Antuérpia, na Bélgica. A delegação brasileira tinha sete atiradores. Além de Paraense, o tiro do Brasil trouxe mais duas medalhas: de prata, conquistada por Afrânio Antônio Costa, e uma de bronze, por equipe.
Paraense somou 274 pontos numa série de 30 tiros, na prova de pistola de tiro rápido de 25 metros. Ele venceu o favorito, o norte-americano Raymond Bracken, que ficou com a prata. O primeiro herói olímpico brasileiro era tenente do Exército e tinha 34 anos quando conquistou a medalha. Ele nasceu em Belém, no Pará, em 25 de junho de 1884, mas sua família mudou-se para o Rio, quando Guilherme tinha 6 anos. Baixinho, magro, ágil, adorava competir. Praticava atletismo, futebol, salto à distância, mas sua grande paixão era o tiro. Faleceu no Rio, vítima de enfarte, em abril de 1968. Tinha 83 anos.
A saga brasileira começou com o descrédito. Ninguém acreditava que o Brasil tinha organização e treinamento suficientes para ir à uma Olimpíada. Tanto que o Comitê Olímpico Brasileiro, mostram os documentos da época, não se preocupou em apoiar os atletas, considerando a ideia uma aventura louca.
O descrédito serviu para animar ainda mais os atletas. Eles pagaram do próprio bolso as passagens. Viajaram num navio de terceira classe, o Curvelo, que zarpou do Rio em 1º de julho. A delegação era formada por 25 atletas - um de saltos ornamentais, sete do tiro, cinco do remo, sete do polo aquático e cinco da natação.
A viagem começou e com ela começaram os problemas da delegação brasileira. Os alojamentos no navio eram apertados, desconfortáveis e abafados. Eles se reuniram, foram conversar com o comandante Reis e ganharam o direito de dormir no chão do bar, desde que esperassem que o último freguês fosse dormir.
A travessia do Atlântico continuava e os problemas também. Na escala da Ilha da Madeira, os atletas ficaram sabendo que a viagem atrasaria e perceberam que não chegariam à Antuérpia a tempo de pegar as competições de tiro. Confirmaram a previsão de atraso com o comandante Reis e decidiram: em Lisboa deixariam o navio e seguiriam viagem de outra forma, mais rápida.
Assim foi combinado e assim foi feito. Conseguiram embarcar, com a ajuda da Embaixada brasileira em Lisboa, mas viajaram em um trem aberto, sob chuva e sol. Depois de 27 dias, chegaram a Bruxelas. A competição de tiro aconteceria no campo de Beverloo, uma área de manobras do Exército belga, a 18 quilômetros de Antuérpia, a cidade sede dos Jogos.
Chegaram a Beverloo exaustos, com frio, com a moral baixa e mais um problema: parte do armamento e da munição havia sido roubada na escala de Bruxelas. Foram salvos pelo chefe da equipe de tiro dos Estados Unidos. Os norte-americanos tinham uma equipe completa, com armas e munições fabricadas pela Colt especialmente para eles. Competiam com 35 atiradores, em todas as categorias. O coronel Snyders soube do drama brasileiro e presenteou os brasileiros com duas armas.
Por ironia, Paraense ganharia o ouro, vencendo os norte-americanos, com o Colt Modelo Officers, série 461.000, presenteado por Snyders. A proeza chegou ao Brasil num curto telegrama das agências internacionais de notícias e foi muito festejada.
A volta foi muito diferente da ida. O governo pagou as passagens num navio de primeira classe. No desembarque, estavam no cais do Rio uma multidão feliz e o presidente da República, Epitácio Pessoa. As homenagens a Paraense foram menores do que ele merecia. O stand de tiro do Exército, na Academia de Agulhas Negras, recebeu o seu nome. O Fluminense, clube pelo qual competia, também o homenageou.
Valéria, a neta de Guilherme Paraense, num depoimento a Luiz Roberto Magalhães, do site brasil2016.gov.br, lembra que o avô era muito espirituoso. E brincava com outros campeões olímpicos que conheceu: “Eu abri o caminho à bala para vocês em 1920”.