Rio de Janeiro - A proteção dos atletas é uma condição essencial para a excelência esportiva. Essa foi uma das principais conclusões do III Fórum Esporte Seguro, promovido pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB) nesta quinta-feira (6), no Hotel Hilton Copacabana, no Rio de Janeiro.
Durante um dia inteiro de debates, especialistas de diferentes áreas defenderam que o desempenho esportivo começa muito antes do treinamento, da competição ou da conquista de uma medalha. A performance também depende do ambiente no qual atletas, treinadores, dirigentes e profissionais da saúde convivem diariamente.
O evento reuniu representantes de confederações esportivas, atletas, treinadores, gestores, pesquisadores e especialistas brasileiros e estrangeiros para discutir como a construção de ambientes seguros pode proteger as pessoas e, ao mesmo tempo, favorecer melhores resultados esportivos.
Para o presidente do Comitê Olímpico do Brasil, Marco La Porta, não há coerência entre os valores tradicionalmente associados ao esporte e ambientes que tolerem qualquer tipo de violência.
“Quando a gente fala do esporte e cita os valores que o esporte nos ensina, tem que entender que, para que esses valores sejam colocados em prática, é necessário um ambiente seguro. Não adianta falarmos que o esporte educa, que é segurança, disciplina, se, na verdade, não existe um ambiente em que a pessoa que pratica o esporte possa se sentir segura”, afirmou.
Segundo La Porta, a prevenção de abusos e a proteção dos atletas são compromissos permanentes da entidade.
“Para o Comitê Olímpico do Brasil, o Esporte Seguro é um assunto inegociável. Não abrimos mão de ter um ambiente seguro para o atleta. Um fórum como este permite que a gente faça essa discussão no mais alto nível”, declarou.
A abertura da programação ficou a cargo da ex-nadadora olímpica Joanna Maranhão, uma das principais vozes brasileiras na discussão sobre proteção de atletas.
Ao compartilhar sua experiência e refletir sobre as consequências da violência, Joanna destacou que enfrentar temas difíceis é uma condição necessária para transformar a cultura esportiva.
Ao longo do fórum, as mesas de discussão ampliaram o debate para assuntos como liderança, relações de poder, prevenção de abusos, assédio moral, saúde mental, acolhimento de vítimas, responsabilização institucional e boas práticas na gestão esportiva.
A proposta foi envolver todos os profissionais que participam da formação e da trajetória de um atleta. Em vez de tratar o esporte seguro apenas como um protocolo de prevenção, o encontro buscou demonstrar como cada integrante desse ambiente pode influenciar o bem-estar e o rendimento de quem compete.
O gerente executivo de Educação e Fomento do COB, Sebastian Pereira, explicou que o objetivo do evento foi apresentar as diferentes realidades vividas por atletas, treinadores e profissionais da área médica.
“O objetivo era trazer várias realidades do ambiente do atleta, do treinador e dos profissionais da área médica para entender a necessidade da instrumentalização e do impacto dessas mensagens e reflexões para os sucessos esportivos”, afirmou.
Ao fazer um balanço do fórum, Sebastian ressaltou que a construção de ambientes seguros é uma responsabilidade compartilhada entre pessoas e instituições.
“As instituições esportivas têm a obrigação de fazer com que todos os ambientes dentro das suas áreas sejam cada vez mais seguros para que possamos ter mais praticantes, mais profissionais trabalhando e ambientes seguros para que a gente consiga construir, ao final, medalhas. A jornada do atleta, a jornada da medalha, precisa ser protegida. Todos nós precisamos fazer parte disso, individualmente e institucionalmente”, defendeu.
Responsável pela organização do evento, a gerente da área de Esporte Seguro do COB, Mariany Nonaka, afirmou que a transformação da cultura esportiva é um processo gradual.
Segundo ela, discutir violência, assédio e abuso exige cuidado também com as pessoas que podem se sentir afetadas pelo conteúdo apresentado. “É um tema sensível. A gente precisa compreender que existem pessoas que podem ter dificuldade para ouvir essas discussões, e acolher isso também faz parte do processo”, explicou.
Para Mariany, a mudança depende de um trabalho contínuo de conscientização, prevenção e capacitação. “O esporte seguro é um trabalho de formiguinha. É pouco a pouco, porque também tem uma questão de cultura. A gente precisa desse passo a passo para que as pessoas entendam a importância e como podem fazer parte dessa transformação”, afirmou.
Um dos participantes do fórum foi o treinador da Confederação Brasileira de Boxe Mateus Alves, que integrou o painel “Mentalidade do Alto Rendimento e o Desafio dos Treinadores na Transição das Gerações”.
Dono de oito medalhas olímpicas — quatro conquistadas como assistente técnico e outras quatro como treinador principal —, Mateus afirmou que os resultados não eliminam a necessidade de rever métodos e reconhecer possíveis erros.
“Eu poderia simplesmente dizer: tenho oito medalhas olímpicas, não vou mudar nada. Me esconder atrás do resultado. Mas cabe a autoanálise. Não é porque eu ganhei quatro medalhas olímpicas como treinador principal que eu sou um treinador perfeito. Eu posso ter passado do ponto com um atleta. Preciso ter humildade para perceber que posso melhorar”, declarou.
O treinador ressaltou, no entanto, que a defesa de um ambiente seguro não significa eliminar a disciplina e o nível de cobrança exigidos no esporte de alto rendimento.
“Não podemos confundir e achar que, para ser seguro, o esporte não pode ser rígido com os atletas de alto rendimento. Precisamos entender que existem contextos diferentes. O esporte seguro não pode ser um escudo para impedir qualquer tipo de cobrança. Esse é o grande diálogo que a gente precisa ter”, disse.
A relação entre o ambiente esportivo e o desempenho dos atletas também foi destacada pela presidente da Comissão de Atletas do COB (CACOB), Fernanda Nunes, que participou do painel conduzido por Joanna Maranhão. “As pesquisas apontam que um bom ambiente esportivo favorece a performance”, afirmou.
Segundo Fernanda, abusos, assédio moral e relações tóxicas não representam apenas problemas éticos ou institucionais. Essas situações também podem prejudicar diretamente a carreira dos atletas e atingir outras pessoas que integram as equipes.
“Se o ambiente em que o atleta está é tóxico, se ele presencia diversos tipos de assédio moral, de abuso psicológico, com certeza isso vai interferir na carreira dele”, explicou.
Ao reunir representantes de quem formula políticas, administra entidades, treina equipes e participa das competições, o III Fórum Esporte Seguro mostrou que o debate já ultrapassou a fase inicial de conscientização. O desafio agora é transformar conhecimento em rotina, procedimentos em cultura institucional e compromissos em práticas cotidianas.
Quando o objetivo é formar campeões e alcançar a excelência esportiva, proteger a trajetória dos atletas deixa de ser apenas uma obrigação ética e institucional. A construção de ambientes seguros passa a fazer parte da própria estratégia para melhorar o desempenho e conquistar resultados.






