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Regulamentação das apostas afeta patrocínios no esporte brasileiro
Bets compraram o esporte — agora deixam um rastro de dependência / Foto: Reprodução IA

São Paulo - A proibição das casas de apostas online no Brasil, anunciada nesta sexta-feira (25), interrompe de forma abrupta uma relação que cresceu rapidamente entre as bets e o esporte brasileiro. Nos últimos anos, empresas como Betano, KTO, Betnacional e Esportes da Sorte despejaram milhões de reais em clubes, equipes e eventos, comprando espaço também em modalidades olímpicas como vôlei, basquete e tênis.

A saída desse dinheiro provoca preocupação financeira, mas também expõe uma contradição: parte do esporte brasileiro passou a depender comercialmente de um setor que se tornou alvo de crescente preocupação de autoridades por causa dos riscos associados às apostas, da exposição de crianças e adolescentes e da forma como seus produtos eram divulgados.

Em julho deste ano, o próprio Ministério da Fazenda endureceu as regras para propaganda das bets e passou a exigir advertências explícitas como “Apostar pode causar dependência”, “Apostar faz você perder dinheiro” e “Aposta não é investimento”. A regulamentação também proibiu comunicações capazes de induzir consumidores ao erro e aumentou a responsabilidade de operadores, influenciadores e demais agentes envolvidos na publicidade.

Menos de dois meses depois, o Conar voltou a ampliar as restrições, citando preocupações com os impactos individuais e coletivos das apostas e reforçando regras para influenciadores, publicidade dirigida a menores e proteção de públicos vulneráveis.

Foi justamente nesse ambiente que as casas de apostas conquistaram algumas das propriedades mais valorizadas do esporte brasileiro. 

Betano colocou dinheiro também nos esportes olímpicos do Flamengo - O Flamengo é um dos exemplos mais claros. O acordo com a Betano não se restringiu ao futebol profissional. O contrato prevê R$ 12 milhões destinados especificamente a um projeto de esportes olímpicos, além da exposição da marca em propriedades ligadas ao basquete, vôlei e ao chamado Time Flamengo.

Assim, uma empresa cujo principal produto é a aposta passou a financiar diretamente modalidades e atletas que também funcionam como referência para jovens e crianças.

A associação sempre foi comercialmente atraente para as bets: clubes oferecem enorme visibilidade, credibilidade esportiva e acesso a torcedores profundamente envolvidos emocionalmente com seus times. Para o esporte, o dinheiro era difícil de recusar. Com a proibição, esse vínculo passa a ser desfeito. 

Minas colocou uma bet no nome do basquete - O Minas Tênis Clube avançou ainda mais nessa integração comercial. A KTO tornou-se patrocinadora de equipes de alto rendimento e emprestou seu nome ao time masculino de basquete, que passou a competir como KTO Minas. A empresa também entrou no vôlei masculino e feminino.

Não era apenas uma placa de publicidade em uma arena. A marca de apostas passou a fazer parte da própria identidade pública de uma equipe esportiva. O modelo mostra a velocidade com que as bets penetraram em modalidades que historicamente enfrentam dificuldades para atrair grandes patrocinadores. Quando apareceu uma indústria disposta a pagar valores elevados por exposição, clubes e organizadores abriram espaço rapidamente.

O tênis também aderiu - O Rio Open, principal torneio de tênis realizado no país e único ATP 500 da América do Sul, também abriu espaço para as casas de apostas. A Betnacional figurou entre os patrocinadores oficiais da competição em 2026 e realizou ativações voltadas ao público durante o evento.

A presença das bets em eventos desse porte reforçou a normalização das marcas de apostas dentro do ambiente esportivo: placas, transmissões, ações promocionais, uniformes e redes sociais passaram a repetir diariamente nomes de empresas cujo negócio depende diretamente das perdas dos apostadores.

Publicidade precisou ser endurecida - O crescimento da indústria veio acompanhado de uma reação regulatória cada vez maior. Em 2026, o governo passou a exigir advertências ostensivas sobre os riscos das apostas. As normas também deixaram claro que a publicidade não poderia apresentar o jogo como forma de enriquecer, complementar renda ou solução financeira.

O Conar também endureceu suas regras depois de centenas de manifestações de consumidores e de casos analisados pelo seu Conselho de Ética. Entre as preocupações estavam publicidade feita por influenciadores, exposição de menores de idade e uso de elementos visuais capazes de atrair crianças e adolescentes.

Em um dos casos julgados neste ano, o Conselho determinou a retirada de anúncios que utilizavam uma personagem animada semelhante a uma capivara, entendendo que o recurso poderia chamar a atenção do público infantojuvenil. Em outro, houve sustação e advertência por divulgação de apostas envolvendo perfil de influenciador adolescente. 

O paradoxo do esporte - É nesse ponto que aparece o paradoxo. O esporte sempre vendeu valores como disciplina, desempenho, formação de jovens e saúde. Ao mesmo tempo, passou a oferecer alguns de seus espaços mais nobres a empresas obrigadas pelo próprio governo a exibir mensagens alertando que seus produtos podem causar dependência e perda de dinheiro.

As bets encontraram no esporte um veículo quase perfeito. A ligação emocional do torcedor com clubes e atletas ajudou a transformar marcas desconhecidas em empresas presentes no cotidiano de milhões de brasileiros.

Para clubes e eventos, por outro lado, essas empresas surgiram como patrocinadoras capazes de pagar valores que poucos setores estavam dispostos a oferecer. A dependência comercial cresceu rapidamente.

Quem paga a conta agora? A proibição cria um problema imediato para entidades que passaram a contar com esses recursos. O Flamengo terá de lidar com uma parceria que previa dinheiro específico para seus esportes olímpicos. O Minas perde um segmento que patrocinava basquete e vôlei. Eventos como o Rio Open deixam de contar com um grupo de anunciantes que vinha aumentando sua participação no esporte.

Mas talvez a discussão mais relevante não seja apenas quanto dinheiro será perdido. É também como o esporte brasileiro permitiu que uma indústria tão recente adquirisse, em poucos anos, tamanho espaço em camisas, arenas, transmissões e propriedades esportivas.

O fim das bets retira milhões de reais do mercado. Ao mesmo tempo, obriga clubes, federações, ligas e organizadores a enfrentar uma pergunta que havia sido empurrada para segundo plano enquanto os contratos cresciam: até que ponto o esporte deveria ter se tornado tão dependente do dinheiro das apostas?

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