Entrevistas

Fabiana Murer: 'Só dependo de mim para vencer em Londres'

Fabiana Murer terá uma disputa acirrada por uma medalha em Londres, mas está confiante / Foto: DivulgaçãoFabiana Murer terá uma disputa acirrada por uma medalha em Londres, mas está confiante / Foto: Divulgação

Fabiana Murer: 'Só dependo de mim para vencer em Londres' 

São Paulo - Quando Fabiana Murer passou por uma das piores situações da sua carreira como atleta, em Pequim, em 2008, não imaginava que teria um ciclo olímpico tão movimentado até Londres, com dois campeonatos mundiais. O sumiço de uma das suas varas teve grande responsabilidade pela sua amarga 10ª posição nas últimas Olimpíadas. "Foi um momento ruim, mas está superado", conta a atleta.

O que não está superado é a marca que pode dar a Fabiana, em Londres, a medalha de ouro. O salto de 4,85m que rendeu o Campeonato Mundial em Daegu, no ano passado, ainda está abaixo da marca dos cinco metros, que deve garantir um pódio na principal competição do esporte mundial.

A russa bicampeã olímpica, Yelena Isinbayeva, já saltou 5,06m em pistas abertas. Mas Fabiana está correndo atrás. "Esse é um ano bom para buscar um bom resultado, primeiro alcançar os 4,90m e depois buscar os cinco metros", completou a atleta que além do título mundial de Daegu, no outdoor, tem também uma medalha de ouro no mundial de pistas fechadas, conquistada em Doha, em 2010.

Em sua melhor forma técnica, física e psicológica, como ela mesma define, Fabiana Murer concedeu uma longa entrevista ao Esporte Alternativo. Além da expectativa por uma medalha em Londres, a saltadora contou como foi romper os ligamentos e não parar os treinos, em 2005, falou sobre os Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, e deu até pitacos sobre os outros atletas brasileiros que poderão brilhar nas Olimpíadas deste ano.

 

Confira a entrevista completa:

EA - Quantos anos você tinha quando começou na ginástica?

Fabiana - Eu comecei com sete anos na ginástica e treinei até os 17. Mas com 16 eu já entrei no salto com vara. Durante um ano eu fazia ginástica seis vezes por semana e duas vezes treinava o atletismo.

 

EA - Você achava que era tarde para mudar pro salto?

Fabiana - Não. Quando eu fui fazer o teste, pensava que iria fazer corrida, talvez salto em distância, mas não pensava em salto com vara. Aí o Élson, que é meu técnico até hoje, veio me falar que eu deveria fazer salto com vara, porque tinha força nos braços e isso era raro no feminino. E eu não tinha noção se era tarde ou não. Mas hoje em dia eu vejo atletas começando bem mais novos que eu no salto com vara.

 

EA - Ajudou o fato do Élson ter sido o seu treinador desde o começo?

Fabiana - O atleta e o técnico têm que ter um bom relacionamento. E quando eu comecei o Élson também estava iniciando como técnico. Então nós fomos crescendo juntos, aprendendo como competir em campeonatos mundiais, em Olimpíadas. A técnica também desenvolvemos juntos. Foi importante começarmos juntos, porque eu estava treinando com alguém que assim como eu ainda queria buscar alguma coisa.

 

EA - Qual foi sua primeira grande conquista no salto com vara?

Fabiana - As quebras dos recordes brasileiros foram muito importantes. Primeiro eu bati o recorde brasileiro juvenil e logo em seguida, com um ano de treino, a marca entre os adultos. Mas eu considero a classificação para o mundial juvenil, em 1998, a grande conquista no início da carreira. Foi aí que eu decidi largar a ginástica de vez.

 

EA - Os recordes em ambientes fechados costumam ser maiores no salto com vara. Por quê?

Fabiana - O salto com vara não tem muita diferença entre as pistas fechadas e abertas, pois não há medição de vento como no salto em distância, por exemplo. O resultado melhor talvez seja por conta do tempo de competição: os campeonatos indoor vão do final de janeiro até o começo de março e nas pistas abertas vão de maio até setembro. Então são mais meses de competições e mais chances para as atletas melhorarem os recordes outdoors.

 

EA - Em 2005, você rompeu os ligamentos e continuou treinando. Como foi essa história?

Fabiana - Em 2004 tentei fazer o índice para a Olimpíada de Atenas, mas apenas uma vez. Na época uma regra do Brasil dizia que tínhamos que alcançar a marca duas vezes... No ano seguinte, em 2005, eu coloquei na minha cabeça que eu ia para o mundial, faltavam somente 5 cm para o índice. Três semanas antes da primeira competição torci o tornozelo em um treino de salto e rompi todos os ligamentos. Mas eu estava tão determinada naquele ano que fiquei apenas um dia sem treinar. No outro dia, com o pé imobilizado e de muletas, treinava o que dava: braço, abdômen, usava a outra perna. Eu precisava manter minha forma física para quando o meu pé se recuperasse. Com isso, dois meses após a lesão eu já saltava e consegui fazer o índice para o mundial.

 

EA - O campeonato mundial em Daegu, no ano passado, foi o melhor resultado da sua carreira. Qual o sentimento de ser a melhor atleta do mundo na modalidade?

Fabiana - Fiquei muito contente, porque tinha sido um ano difícil, sem grandes marcas. Mas estava muito determinada por uma medalha. Foi uma das melhores competições da minha vida, já que praticamente não tive erro. E foi uma prova muito disputada, com grandes atletas, como a Ysinbayeva.

 

EA - Você acha que ainda pode melhorar seu recorde pessoal, de 4,85m? Qual o seu número dos sonhos?

Fabiana - Acho que ainda posso melhorar a marca e me sinto na minha melhor forma física, técnica e psicológica. Esse é um ano bom para buscar um bom resultado, primeiro alcançar os 4,90m e depois buscar os cinco metros. É difícil, apenas uma atleta conseguiu, que é a recordista mundial Yelena Isinbayeva, mas eu acredito que tenho condições de chegar nessa marca.

 

EA - Você disse que está na sua melhor forma psicológica também. Isso nos lembra a questão do sumiço da sua vara em Pequim, em 2008. Hoje em dia este incidente já está superado?

Fabiana - Foi uma situação muito chata e difícil de eu superar. Mas depois daquilo eu cheguei à conclusão de que devia melhorar minha técnica, para estar preparada para esse tipo de problema. Por um lado foi uma motivação para eu continuar melhorando o meu salto e alcançar melhores resultados. Foi horrível, mas me fortaleceu bastante e me deixou mais experiente.

 

EA - Está mais atenta às varas?

Fabiana - Fiquei bem mais atenta, (risos). Mas não neurótica, porque quando eu chego a uma competição, sou obrigada a deixar as varas com a organização, já que medem 4,5m cada. Então preciso confiar neles, já que não posso carregá-las.

 

EA - Você acabou ficando em décimo em Pequim. E em Londres, o que você espera?

Fabiana - Nas Olimpíadas deste ano eu vejo uma possibilidade maior de buscar uma medalha. Vai ser difícil, porque têm umas seis ou sete atletas com uma marca parecida. Mas estou treinando pelo pódio.

 

EA - Como bater Yelena Isinbayeva nas Olimpíadas?

Fabiana - Ela é sem dúvida uma grande atleta. Bateu inclusive o recorde mundial em pistas fechadas neste ano e está determinada a ganhar a terceira medalha de ouro olímpica. Para eu vencer nas Olimpíadas preciso sem dúvidas melhorar minha marca. Dependo só de mim. Por isso decidi esse ano não fazer a temporada em pista coberta, para poder treinar mais, ter mais calma para melhorar alguns pontos, saltar mais alto e chegar mais confiante em Londres.

 

EA - E 2016? É possível competir em casa?

Fabiana - Eu penso em disputar até 2016. O salto com vara feminino é novo, então não sabemos quando as atletas se aposentam. Já vi mulheres de 37 anos fazendo saltos de alto nível. Nas Olimpíadas do Rio, com 35 anos, eu posso estar saltando bem ainda. Porque eu não sou uma atleta muito veloz, dependo mais da minha técnica do que da minha condição física. Eu gostaria muito de encerrar a minha carreira disputando uma Olimpíada no meu país e isso é o que me motiva. Se os Jogos fossem em outro país, acho que eu pararia.

 

EA - Como você entende o investimento no salto com vara e no atletismo hoje?

Fabiana - O atletismo está muito bem no Brasil. Os atletas estão com boas condições de treinamento. Hoje em dia tem também muitas meninas jovens procurando treinar o salto com vara. Tem duas de 14 e 15 anos no meu grupo de treinamento, por exemplo. Além do apoio, hoje elas têm uma noção de competitividade, na minha época eu não tinha parâmetro de quanto saltar, porque aqui a modalidade ainda estava engatinhando e não havia grandes índices. Para você ter ideia, qualquer resultado que eu fazia era recorde brasileiro. (risos)

 

EA - Você treinou algum tempo com o técnico ucraniano Vitaly Petrov, ex-técnico do recordista mundial Serguei Bubka. O intercâmbio com outros países é importante no salto com vara?

Fabiana - Sem dúvidas, o Petrov foi essencial para a minha carreira, para o que eu consegui até hoje. No começo era bem difícil, porque não entendíamos o que ele queria nos treinos... Eu não tinha visualização do que ele queria exatamente. Mas o intercâmbio é muito importante. O atleta precisa competir fora do Brasil, conhecer saltadores melhores e outras técnicas.

 

EA - Em algum momento será possível para as mulheres chegarem próximas da marca do Serguei, de 6,15m?

Fabiana - Não, é geneticamente impossível. Porque os homens são mais fortes e velozes que as mulheres e saltam com varas maiores e mais duras. O Petrov mesmo acredita que as mulheres ficarão um metro abaixo da maior marca masculina. E como o Serguei aumentava o seu salto de um em um centímetro, ele não conseguiu o seu máximo... Alguns estudos dizem que ele chegaria a 6,30m, então nós chegaríamos, em teoria, até mais ou menos 5,30m.

 

EA - O que é muito, não?

Fabiana - Sim, é demais! (risos)

 

EA - Por incrível que pareça você salta apenas uma vez por semana?

Fabiana - Sim, antes eu fazia dois treinos de salto por semana, agora neste ano estou saltando a cada cinco dias, praticamente uma vez por semana. É lógico que é o treino mais legal (risos), mas é muito desgastante... Então, foi bom ter diminuído. Antes eu fazia no máximo oito saltos por treino, agora, como salto a cada cinco dias, chego a fazer pelo menos dez saltos por vez.

 

EA - E as marcas nos treinos são mais baixas?

Fabiana - Sim, nos treinos salto bem menos que em competições, até porque a adrenalina é diferente e as varas também. As varas que uso em grandes competições geralmente uso pela primeira vez... Mas tenho o seguinte parâmetro para me avaliar: se eu saltar 4,60m no treino sei que posso subir de 20 a 25 centímetros na competição. Para mim isso funciona, não sei para os outros atletas.

 

EA - Olhando de fora, quais outros atletas você vê com chances em Londres?

Fabiana - Bom, é sempre muito difícil uma medalha olímpica, mais vejo alguns atletas com chances. Por exemplo, o Marilson dos Santos na maratona, a Maurren Maggi, que é a atual campeã olímpica no salto em distância, e o Duda, que foi agora campeão mundial no salto em distância em pista coberta.

 

EA - Como está a sua agenda até Londres?

Fabiana - Eu começo a competir agora dia 16 de maio, no GP de São Paulo e logo em seguida, no dia 20, no Rio de Janeiro. Após isso vou para a Itália, passar um período treinando em Fórmia, onde fica a nossa base na Europa. Optamos por treinar na Itália por conta do tempo que é melhor, chove menos... Mas vamos para Londres uns cinco dias antes da minha prova, para dar tempo das varas chegarem e não ter problemas com isso (risos).

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